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O espinheiro disse sim

há 5 horas
4 min de leitura
O espinheiro disse sim
O espinheiro disse sim

Estou há três semanas com o freio puxado.

O seminário me mantém mergulhado em tarefas, leituras e entregas, e a matéria exige tudo o que tenho. Dei com gosto. Mas isso me afastou um pouco do que mais gosto de pesquisar: a liderança. O comando. O que acontece dentro de quem se senta na cadeira.

Hoje volto ao blog para te colocar em dia. Mesmo lendo de canto de olho, nestas semanas continuaram aparecendo descobertas, e vale a pena mantê-las frescas para que sigamos crescendo juntos neste tema.

A história continua prestando contas. Repete as mesmas falsidades do comando, uma vez após outra. Repete também o mesmo vício: um comando que se desenvolve em compartimentos separados, com o escritório de um lado, a casa de outro e a alma num quarto que ninguém visita.

E hoje vemos isso ao vivo. Há líderes que comandam com nostalgia do passado e herdam seus erros com o mesmo carinho que suas glórias. Continuamos replicando ciclos, modelos e arquétipos que já beiram o obsceno.

O primeiro ciclo terminou com uma cadeira ocupada por um sobrenome. Deixou a máquina andando e a ferida aberta. Agora entramos no segundo, e o segundo começa numa casa.

Linz, Áustria. Janeiro de 1903.

Um funcionário aposentado da alfândega entra na taverna como toda manhã. Pede seu copo de vinho. Desaba antes de terminá-lo.

Em casa fica um menino de treze anos. Aquele pai batia nele, e contam que um dia o menino decidiu contar os golpes em voz alta sem chorar. Chegou a trinta e dois.

Dezembro de 1907. A mãe morre de câncer na cozinha do apartamento. O médico da família, um judeu chamado Eduard Bloch, escreveu depois que em toda a sua carreira nunca tinha visto um jovem tão quebrado pela dor. Naquele mesmo outono a Academia de Belas Artes de Viena havia rejeitado o rapaz. No ano seguinte o rejeitou outra vez.

Dezoito anos. Sem pai, sem mãe, sem a única porta que quis abrir. Viena lhe deu depois um albergue para homens sozinhos.

Ninguém deu nome àquela ferida. Ele mesmo deu, anos depois, e deu esse nome a uma nação inteira.

Novembro de 1918. Hospital de Pasewalk.

O rapaz agora tem vinte e nove anos. Foi mensageiro nas trincheiras, e um ataque de gás o deixou cego por alguns dias. Na cama recebe a notícia: a Alemanha se rendeu. Segundo ele mesmo contou, virou o rosto contra o travesseiro e chorou pela primeira vez desde o túmulo da mãe.

Sete meses depois, o Tratado de Versalhes obrigou a Alemanha a assinar, no artigo 231, que a culpa da guerra era sua. Em 1921 a culpa já tinha preço: cento e trinta e dois bilhões de marcos-ouro. Em 1923 a cédula valia menos que o papel em que estava impressa.

Uma pessoa humilhada não procura médico. Procura alguém que lhe diga que a culpa não foi dela.

Ele disse. Disse à nação que o exército nunca tinha perdido no campo de batalha e que ela havia sido apunhalada pelas costas. Deu à ferida de todos o nome da sua: traição, orfandade, uma dívida que outro tinha de pagar.

Aqui aparece a raridade deste ciclo, e não é a que você espera.

As pessoas imaginam um povo inteiro gritando a uma só voz. Nas últimas eleições livres, em novembro de 1932, o partido dele recuou e perdeu dois milhões de votos. Estava em queda.

Dois meses depois, em 30 de janeiro de 1933, um presidente de oitenta e cinco anos o nomeou chanceler. Os políticos de carreira estavam convencidos de que podiam controlá-lo. O país vinha de catorze anos de crise, governos que caíam em poucos meses e fome na mesa.

Quem o sentou na cadeira foi o esgotamento. A unanimidade nunca chegou.

«Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu e reina sobre nós. E disse o espinheiro às árvores: Se, na verdade, me ungis por rei sobre vós, vinde e confiai-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano» (Juízes 9:14-15).

A oliveira tinha azeite, a figueira tinha fruto e a videira tinha vinho. As três disseram não. O espinheiro disse sim.

Um espinheiro não dá sombra. Dá fogo.

Encontrou a maquinaria andando. O tratado havia proibido o Estado-Maior, e o Estado-Maior continuou vivo com outra placa na porta: Repartição de Tropas. Os mesmos homens, os mesmos mapas, a mesma escola.

Em 2 de agosto de 1934 morreu o velho presidente. Naquele mesmo dia os soldados juraram. O juramento já não nomeava a pátria nem a constituição. Nomeava um homem: obediência incondicional, diante de Deus, à sua pessoa.

No primeiro ciclo a alma se perdeu por acumulação: ninguém a quis e todos a construíram. No segundo, se perdeu por captura. Um homem ferido decidiu torto e herdou um sistema que funcionava. Não precisou inventar os trens. Bastou trocar o nome do juramento.

No verão de 1938, o chefe do Estado-Maior escreveu que a obediência do soldado tem um limite: o lugar onde o conhecimento, a consciência e a responsabilidade proíbem executar a ordem. Pediu aos generais que renunciassem juntos.

Renunciou sozinho.

Depois veio o fogo. Dezenas de milhões de mortos e outros tantos arrancados de sua terra, caminhando com o que cabia numa mala. Essa conta não foi paga por quem votou. Foi paga por quem nunca foi convidado à mesa.

Olhe o espelho de 2026 com calma.

Uma sociedade esgotada que não consegue chegar a um acordo. Homens com feridas profundas que se oferecem para dar nome à ferida de todos. Uma máquina que já não evolui em décadas: evolui em meses. Migrações que ninguém governa e que o medo transforma em inimigo.

Nunca houve uma época tão devastadora no comando quanto os últimos vinte anos.

E tudo começou numa casa. Num pai que batia, numa mãe que se foi e num menino a quem ninguém ensinou o que fazer com a dor. O lar é a área que mais recebe as contas do comando sem alma, e é também a primeira a cobrá-las de volta.

Que ferida você deixou aberta em casa sem lhe dar dono? E quem é você na parábola: a oliveira que disse não, ou o espinheiro que disse sim? Te leio no Líder 4×4.

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